Live from the USk Manchester Symposium #2

USk Manchester Symposium day 2 / Simpósio USk em Manchester dia 2

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Day two of the USk Symposium started out with lots of exciting activities! There were as many as 20 workshops happening simultaneously, as well as a few lectures and some activities, just during the morning! It’s a lot of ground to cover, so Luís Frasco and I split up a few of the workshops between us, to get the feel of the event.

O dia dois do Simpósio USk começou com muitas actividades entusiasmantes! Só durante a manhã aconteceram 20 oficinas simultaneamente, e também algumas palestras e actividades! É muito terreno para cobrir, então o Luís Frasco e eu dividimos algumas das oficinas entre nós, para melhor mostrar o ambiente do evento.

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After the initial speech of the day by Urban Sketchers President Elizabeth Alley, and a couple of hints on the competitions being held by the sponsors of the Symposium by Omar Jamarillo, I went on to check out how Marc Taro Holmes led his workshop, titled “How to plan and execute a team based sketching reportage”. It dealt with strategies on how to mobilize a crew of sketchers around a subject – the Manchester Museum served as an example – and how to turn efficient results, while reducing steps and time of drawing execution. It was a true lesson on efficiency and being unattached from the quality of the result, or at least the quality from the initial tests.

Depois dos discursos de arranque do dia pela Presidente dos Urban SketchersElizabeth Alley e um par de dicas sobre os concursos organizados pelos patrocinadores do Simpósio dadas pelo Omar Jamarillo, Fui ver como o Marc Taro Holmes estava a liderar a sua oficina chamada “Como planear e executar uma reportagem de desenho em equipa”. Lidava com estratégias sobre como mobilizar um grupo de desenhadores em torno de um objecto – o Museu de Manchester serviu como exemplo – e como obter resultados eficientes ao mesmo tempo que se reduzem passos e tempo no processo de desenho. Foi uma verdadeira lição de eficácia e desligamento da qualidade do resultado, ou pelo menos da qualidade dos testes iniciais.

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Marina Grechanik (sorry for the name misspelling on the sketch) was leading her group nearby, at the All-Saints Gardens, under a light but constant rain. Her approach on the workshops is very discreet, as she prefers to let the results of the exercises speak for themselves. In her workshop dubbed “What and how – creating your story” she assigned very simple, but very enlightening exercises, such as exploring different framing approaches, dynamic and static and symmetric and assymetric layouts of the same object. The point of these repetitive sketches being that different approaches on the same object end up telling a different story about that object.

Marina Grechanik (lamento pelo erro no apelido no desenho) chefiava o seu grupo ali perto, no jardim All-Saints, debaixo de uma chuva leve mas constante. A sua abordagem nas oficinas é muito discreta. Ela prefere que os resultados dos exercícios falem por si próprios. Na sua oficina baptizada de “O quê e como – criando a tua história” ela atribuiu exercícios simples mas elucidativos, tais como explorando o mesmo objecto através de opções de enquadramento diferentes, de uma abordagem estática e dinâmica, simétrica e assimétrica. O objectivo nestes desenhos repetitivos era constatar que abordagens diferentes sobre o mesmo objecto acabam por contar histórias diferentes sobre ele.

Don Low had taken his group to the sheltered inside of the Benzie Building to instruct them on how to approach the human figure. His workshop called “Decisive line in drawing figures in motion & repose”, dwelled, among other techniques, in blind contour drawing. The group was indeed very silent while using this drawing technique so dear to me, which meant that the concentration levels were on the high.

Don Low levou o seu grupo para o abrigo do interior do Edifício Benzie, para os instruir em como abordar a figura humana. A sua oficina chamada “Linha decisiva no desenho de figuras em movimento e descanso” apoiava-se, entre outras coisas, sobre o desenho cego. O grupo ficou realmente muito silencioso ao usar esta técnica tão querida para mim, o que significava que os níveis de concentração estavam em alta.

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In the afternoon, under heavy rain, Marion Rivolier led us to a brick arch under the railway. This arch framed the object of our skecthes under the workshop “Paint like nobody’s watching”. I almost always do, but what drew me to Marion’s workshop was the sketches Mário Linhares had done under her during the morning – all wet-on-wet broad colored brush strokes that are still a mystery to me. Marion showed us how to handle a specific palette of watercolors through a combination of simple but challenging structure of warmth, value and color. In her briefing to us she made a statement that we all should carry with us everywhere: “I believe a good drawing is one that effectively communicates the artist’s point of view, one in which the observer can feel the artist’s choices”.

Durante a tarde, debaixo de uma chuva pesada, a Marion Rivolier conduziu-nos a um arco de tijolo debaixo da linha férrea. Este arco emoldurava o sujeito dos nossos desenhos durante a oficina “Pinta como se ninguém te estivesse a ver”. Quase sempre o faço, mas o que me trouxe à oficina da Marion foram os desenhos que o Mário Linhares tinha feito com ela durante a manhã – aguarelas sobre papel molhado em pinceladas coloridas largas que ainda são um mistério para mim. A Marion mostrou-nos como utilizar uma paleta específica de cores através de uma combinação simples mas desafiante de temperaturas, valores e cores. Na sua introdução, ela lançou uma frase que todos deveriamos guardar sempre connosco: “Acredito que um bom desenho é um que comunica eficientemente o ponto de vista do artista, um em que o observador consiga sentir as escolhas do artista”.

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Meanwhile, the Florian Afflerbach tribute wall is getting pretty filled up, but there’s still more wacky sketches of cars coming in.

Entretanto, a parede de tributo ao Florian Afflerbach vai ficando bastante cheia, mas ainda vêm aí mais carros em perspectivas doidas a chegar.

Sketching weekend in Portimão #1 / Fim-de-semana de desenho em Portimão #1

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ISMAT, the local university in Portimão, organized an event to promote its next school year to new and old students. Based on the emphasis that the courses in architecture and design have in the university’s portfolio, it seemed fit to include free sketching workshops as part of the event. I, together with expert sketchers Luís Frasco, Filipe Almeida and Hélio Boto, banded around 50 eager students and showed them some simple exercises that allowed them to explore and enhance their sketching experience.

O ISMAT, uma das duas universidades em Portimão, organizou um evento de alguns dias para promover o seu próximo ano lectivo. Como os cursos de arquitectura e design tem um enfoque especial no currículo da instituição, parecia natural incluir oficinas livres de desenho como parte do evento. Eu, lado a lado com os exímios desenhadores Luís Frasco, Filipe Almeida e Hélio Boto, reunimos cerca de 50 alunos e mostrámos-lhes alguns exercícios simples que lhes permitirão explorar e melhorar a sua experiência de desenho.

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During the morning, Luís and Filipe showed everybody how to differentiate the foreground from the background through different techniques: line weight, the use of washes and the amount of detail employed. Students explored the techniques by the beautiful shoreline of the Arade estuary.

Durante a manhã, o Luís e o Filipe mostraram a todos como se pode diferenciar o primeiro e o segundo plano num desenho, através de diferentes técnicas: espessura de linha, o uso de manchas e a quantidade de detalhe empregue. Os alunos exploraram os exercícios espalhados ao longo da brilhante ria do Arade.

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I took the morning time off to be their student and also to prepare some exercises for later on. After a quick lunch, Hélio took the lead on the afternoon workshop, showing a couple of perspective templates: a street perspective and a corner perspective. Students were told to go out and find those templates in the streets of Portimão and sketch them. Perspective is a tricky concept for new sketchers, but with few pointers, everything fell into place eventually. Later in the afternoon, I showed the students how to deal with moving people, just to allow organic, quick, expressive lines to flow out of their pens and pencils.

Usei a manhã para ser aluno deles e também para preparar alguns exercícios para mais tarde. Depois do almoço, o Hélio arrancou a oficina da tarde, mostrando dois modelos simples de perspectiva: uma rua e uma esquina. Os alunos foram encarregues de encontrar esses modelos nas ruas de Portimão e desenhá-los. A perspectiva é um conceito tramado para iniciantes do desenho, mas com algumas dicas, tudo correu pelo melhor. Mais tarde, mostrei aos alunos como lidar com pessoas em movimento, apenas para permitir que linhas rápidas, orgânicas e expressivas pudessem começar a sair livremente dos seus lápis e canetas.

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While Filipe had to leave early, the sunset saw a trio of tired but satisfied sketchers by the shore.

Enquanto o Filipe regressava a casa mais cedo, o pôr-do-sol assistiu a um trio de desenhadores à beira rio, cansados mas satisfeitos.

 

Short circuit / Curto-circuito

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Last Sunday, the Electricity Museum (Museu da Electricidade), in league with Urban Sketchers Portugal, hosted a series of sketching workshops. There were six couples of sketchers spread throughout the museum all day and several groups of people going from location to location to attend the six different workshops. Rita Caré and I, being blind contour drawing enthusiasts, introduced the participants on how to draw with eyes wide open. It was a diverse crowd as both beginners and experienced sketchers showed up to participate.

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No último domingo, o Museu da Electricidade, em parceria com os Urban Sketchers Portugal, foi o anfitrião de uma série de oficinas de desenho. Seis duplas de desenhadores, espalhadas pelo museu, receberam, durante todo o dia grupos de pessoas que passavam de local em local para participar nas seis oficinas diferentes. A Rita Caré e eu, entusiastas do desenho cego, iniciámos os participantes na técnica de desenhar com os olhos bem abertos. Os grupos eram muito diversos e havia tanto principiantes como desenhadores experientes.

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At meals, sketchers are anti-social beings who care not for chatting – This could be the tagline of the picture above. The truth is this is the way sketchers communicate. Though the richness and variety of lines, shades and colors on bound paper. You may not know it but between these four figures lies an incredible concentration of talent (and hunger)!

Às refeições, os desenhadores são seres anti-sociais que não querem saber de conversas – Esta podia ser a frase titular da imagem acima. A verdade é que é assim que os desenhadores comunicam. Através da riqueza e da variedade das linhas, manchas e cores sobre papel cosido. Poderão não o saber mas, entre estas quatro figuras encontra-se uma concentração impressionante de talento (e de fome)!

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The afternoon was quieter for us, as the crowd shifted around to attend the other workshops. I took the time to participate in our neighbours’ workshop, André Duarte Baptista and Pedro Alves, who were showing how to use color wash and line work together in a sketch to convey depth. It was a tough but worthwhile challenge! The setting was perfect for such an event as the intricate 19th-century machinery, washed by the winter sun produced a grainy atmosphere filled with contrasts and deep tones. By the end of the afternoon, mostly everybody had short-circuited from so much sketching activity. It was time for a well-deserved late afternoon snack.

A tarde tornou-se mais calma, quando os grupos exploraram as oficinas em outras partes do museu. Aproveitei a oportunidade para participar na oficina dos nossos vizinhos, André Duarte Baptista e Pedro Alves, que mostravam como se usa a mancha e a linha num desenho para transmitir profundidade. Foi um desafio tramado mas valioso! O palco estava perfeito para este evento. A maquinaria intrincada do séc. XIX, banhada pelo sol de inverno produziu uma atmosfera texturada cheia de contrastes e tons profundos. Ao final da tarde, quase toda a gente tinha entrado em curto-circuito de tanto desenho. Era altura de um bem-merecido lanche.

Secrets of a craftsman #2 / Segredos de um artesão #2

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

Ataíde progressed faster than his army comrades, getting multiple promotions at once. He also did a stint at the army’s carpentry. Much like his father, his skill granted him support among his commanding officers who would even assign him personal projects. “Who was going to the officers houses to work? Neves.” he tells in the third person, as if distancing himself from the talented young man that he was. Accidentally chopping off the tip of a thumb earned him yet another promotion and the return to saddlery.

Ataíde progrediu na carreira mais rapidamente que os seus colegas do Casão Militar, saltando várias categorias de uma vez só. Ainda no exército, trabalhou breves anos na carpintaria. À semelhança do seu pai, pela habilidade, caiu nas boas graças dos seus superiores que lhe encomendavam pessoalmente trabalhos. “Quem ia para casa dos oficiais era o Neves” conta, empregando a terceira pessoa do singular para se distanciar do jovem talentoso que foi. O corte da ponta de um polegar valeu-lhe mais uma promoção e o regresso à correaria.

The neutral and detached tone Neves takes as he recalls the past, hints a man with no interest in glory. Ataíde Neves’ passion is neither success nor money. It’s not even the allure of being around and working with horses. There’s no particular attraction or admiration there. He only seems infatuated with his daughters and his craft. Every order he gets is a project he carefully and meticulously plans and executes, not stopping unless he outputs a quality product.

O tom neutro e desapegado com que relata os sucessos passados do Neves revela uma homem desinteressado pelos louros. A paixão de Ataíde Neves não é o sucesso nem o dinheiro, nem sequer o fascínio pelos cavalos, que tanto magnetismo exerce junto de tantas pessoas. Ele apenas se revela apaixonado pelas suas filhas e pelos seus ofícios. Encara cada encomenda como um projecto em que deposita planeamento cuidado, mestria de execução e entrega a um resultado final de qualidade.

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

Among the objects he makes, together with his seamstress wife, there’s a whole thesaurus exclusive to the world of horseback riding – Portuguese and English halters, bridles and hackamores, bits, harnesses and breastplates, saddles and cruppers – everything handmade. He frowns upon the mass manufactured gear sold by large sports retailers, but ensures that he faces no competition from them. Experience tells him many people – especially the more experienced riders – appreciate his sturdy, honest, hand-made products.

Entre os objectos que produz, juntamente com a esposa costureira, encontra-se todo um vocabulário exclusivo ao universo dos cavalos – cabeçadas Portuguesas de meia cortesia, cabeçadas à Inglesa, serrilhões, cilhões de volteio, arreios, rabicheiras, selas à Portuguesa ou à Relvas – tudo feito à mão. Repudia o material vendido por grandes cadeias de material de desporto, fabricado em série, mas assegura que estas não lhe fazem concorrência. A experiência provou-lhe que há muita gente que aprecia o material feito à mão, genuíno e robusto, em particular cavaleiros com mais experiência.

Unexpectedly, this little workshop amidst the «Jockey» seems to have found the Holy Graal of entrepreneurs. It’s hard for Ataíde to pin a figure, but he ensures that 85 to 89 percent of the product he sells are exports – chiefly to Austria, Switzerland, Germany and France. He even has repair jobs coming from abroad. His advertising is the simplest: word-of-mouth and satisfied customers. His greatest marketing assets are riders that make use of his products in international venues and competitions. He doesn’t deal online or through slug mail. It’s one of his regulars, who travels frequently to key-locations, that brings the product straight to his foreign customers. The GNP owes him gratitude.

Inesperadamente, esta pequena loja no seio do «Jockey» parece ter encontrado o Santo Graal do empreendedorismo em Portugal. É difícil a Ataíde garantir um número preciso, mas afirma que cerca de 85 a 95 porcento do material que vende é para lá da fronteira. Exporta principalmente para Áustria, Suíça, Alemanha, França. E tem até pedidos de reparação de material do exterior. A sua publicidade é a mais simples: o passa-palavra e os clientes satisfeitos. Os seus maiores divulgadores são cavaleiros que usam o seu material em exposições, feiras e competições. Não lida com internet ou correios para gerir as encomendas. Um seu cliente português que viaja frequentemente para locais-chave, encarrega-se de lhe levar as encomendas aos clientes estrangeiros. O PIB agradece.

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

The workshop’s location has become more tradition than convenience, since Ataíde’s business wouldn’t survive depending only on the «Jockey’s» usuals. Associates of the club appreciate his service, but frown on the fact that Ataíde serves customers outside the circle.

A localização da loja já é por tradição e por conveniência, mas Ataíde afirma que não sobreviveria apenas com a freguesia do «Jockey». Os sócios do clube apreciam os seus serviços, mas desdenham que Ataíde faça negócio fora do círculo.

While exports make his livelihood, unusual customers capture his attention. Berlin-based Portuguese Artist Leonor Antunes uses traditional materials in her grid-inspired sculptures. The leather for her works discrepancies with M.S. #2, Random Intersection #8, and A secluded and pleasant land. In this land I wish to dwell, the latter exhibited in Miami in 2014, were made by Ataíde in his workshop, scented with the odor of comfort, amidst the bitter smell of the boxes and rings, hidden alongside Campo Grande. He never got around to visit any exhibition of his works, although he was invited by the artist herself. He rarely travels unless it’s to visit his native village on the banks of the Zêzere, which natural beauty he boasts emphatically. He doesn’t like to leave his wife and two daughters for long, especially the eldest, whose health condition he struggles to conceal along his tale.

Se são as exportações que lhe dão o ganha-pão, os clientes invulgares despertam-lhe a curiosidade. Leonor Antunes, artista plástica Portuguesa de projecção internacional, baseada em Berlim, faz uso de materiais vernáculos nas suas esculturas inspiradas por grelhas e estruturas arquitectónicas. O cabedal para as suas peças discrepancies with M.S. #2, Random Intersection #8, ou A secluded and pleasant land. In this land I wish to dwell, esta última exibida em Miami em 2014, foram encomendas executadas por Ataíde, na sua minúscula oficina impregnada com o cheiro a conforto do cabedal, instalada entre o acre das boxes e picadeiros, escondida à beira do Campo Grande. Nunca chegou a visitar as exposições, apesar de ter sido convidado pela própria artista. Raramente viaja sem ser para a sua aldeia no vale do Zêzere, de que gaba a beleza natural. Não gosta de deixar a esposa e as filhas por muito tempo, em particular a filha mais velha, de 28 anos de idade, cuja condição patológica tem dificuldades em contornar ao longo da conversa.

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

Ataíde complains about the lack of time and space. Time, to work in projects he really enjoys, like a fine saddle based on designs his workshop used to manufacture. “[Making] a saddle is the top of the game” he concludes. Space, to host apprentices who could help him or continue his work. But surprisingly, and unlike so many businesses in the country, Ataíde Neves does not complain about lack of work.

Queixa-se Ataíde da falta de tempo e de espaço. De tempo para trabalhar em projectos de que gosta realmente, como uma boa sela, seguindo os modelos que a sua loja costumava oferecer. “Uma sela, um arreio é o topo da profissão.” conclúi. De espaço para receber formandos que o ajudem ou dêem continuidade ao seu trabalho. Mas surpreendentemente, e contra-corrente de tantas empresas em Portugal, Ataíde Neves não se queixa de falta de trabalho.

Secrets of a craftsman #1 / Segredos de um artesão #1

Saddlery by Ataíde Neves
In Lisboa, an experienced saddler dodges the crisis thanks to the quality of his work. He works the leather mainly for horseback riders, but doesn’t turn his back to unexpected customers, domestic and foreign alike. His joy and his skill are the pillars of his unusual success, he claims, although returning customers and the rarity of his skill may very well be a strong influence.
Em Lisboa, um correeiro experiente contorna a crise graças à qualidade do seu trabalho. Trabalha o cabedal maioritariamente para cavaleiros mas não recusa clientes de áreas inesperadas, dentro e fora de fronteiras. Aponta o gosto pelo que faz e a habilidade com que o faz como os pilares do seu invulgar sucesso, mas clientes fiéis e a raridade do seu ofício poderão ser factores determinantes.

That saturday, due to the heavy rains, the juniors football team of Povoense didn’t play against Benfica, which gave Ataíde Neves – father of two daughters, the youngest of them thirteen years old  is a football player in Povoense – the morning off to talk about his job, his business and his life.

Nesse sábado, devido à chuva torrencial, a equipa de futebol de juniores feminina do Povoense não jogou com o Benfica, o que deixou a Ataíde Neves – pai de duas filhas, a mais nova, com treze anos de idade, futebolista no Povoense – a manhã livre para conversar sobre a sua profissão, o seu negócio e a sua vida.

Ataíde Neves, the Jockey Club saddler

His workshop is deep inside a small village located in Lisboa, a place that, as so many other places in the capital, goes unnoticed to many Lisboners. Only people who are related to its specific culture work, reside or visit this village. A few dozen people inhabit it. As do a few hundred horses. It sits right besides Campo Grande and goes by the name of Centro Hípico de Lisboa, home of the Sociedade Hípica Portuguesa. Those who visit it regularly call it by its less formal name – the Jockey.

A sua pequena loja-oficina fica numa aldeia no interior de Lisboa que, como tantos outros lugares da capital, passa despercebida aos Lisboetas. Nesta aldeia só residem, trabalham ou a visitam pessoas que, de uma ou outra forma, estão relacionadas com a sua actividade e a sua cultura específica. Lá residem algumas dezenas de pessoas e algumas centenas de cavalos. Fica junto ao Campo Grande e chama-se Centro Hípico de Lisboa. Quem a visita conhece-la pelo nome da instituição que alberga – a Sociedade Hípica Portuguesa – ou pelo seu nome mais coloquial – o «Jockey».

Besides small spontaneous houses, meandering the dirt tracks and puddles, this Lisboa’s village also has riding rings, courtyards connected to the boxes where the horses dwell, and half a dozen commercial establishments. One of these is the notorious – for those who need it – saddler workshop, a skill closely bound to the art of horseback riding.

Para além de pequenas habitações vernáculas, esta aldeia Lisboeta possui também, entre caminhos de saibro e terra batida, picadeiros e pátios relacionados com a prática do hipismo e meia dúzia de estabelecimentos comerciais, entre os quais a famosa – para quem dos seus serviços precisa – loja do correeiro, ofício intimamente ligado à arte de cavalgar.

Saddlery by Ataíde Neves

 

Ataíde, a saddler with 36 years on the job, started his activity in the army’s workshops – the Casão Militar, fulfilling the army service at the same time. He chose saddlery, not by family tradition, but because he considered himself a natural craftsman. But the origins of such talent, he puts it partly on his father who, in his native Pampilhosa da Serra region, would frequently replace the scarce physicians of the province, dispensing treatments and simple bandages throughout the villages. Threatened by the Republican Guard for practicing unlicensed medical acts, he was helped by a doctor who treasured him as a field aid and who drove him to Coimbra to help him legalize the job he already had.

Ataíde, correeiro com 36 anos de experiência, começou a sua prática nas Oficinas Gerais do Exército, o Casão Militar, cumprindo, simultaneamente o serviço militar obrigatório. Escolheu a correaria, não por ter alguma ligação familiar ao ofício, mas por se considerar habilidoso com os trabalhos manuais. Já as origens de tal talento, atribui-as em parte ao pai, que na sua região natal da Pampilhosa da Serra fazia frequentemente as vezes dos raros médicos da província, administrando tratamentos e curativos simples pelas aldeias da zona. Ameaçado pela GNR por praticar actos médicos sem licença, foi ajudado por um médico que o estimava como auxiliar e que o levou a Coimbra para o ajudar a legalizar a profissão que já exercia.

(to be continued / continua)