Avaliando o SM.LT Art Authenticbook

(click here for the English review)

Já passou mais de um ano desde que os fabricantes Lituanos SM.LT Art gentilmente patrocinaram as oficinas de desenho minhas e do Pedro Alves, num fim-de-semana em Barcelona, e na Winter Sketching School de Riga. É já tempo de avaliar um dos seus espectaculares produtos.

A colecção de Authentic Albums da SM.LT inclui o caderno cosido Authentic Watercolor. É uma peça de design descontraída, perfeita para desenhos relaxados, para a prática diária, ou para um fim de semana fora a desenhar. É leve, super portátil e o formato A5 é grande o suficiente para desenhos panorâmicos. Em Portugal, está à venda online a 4.99€ na Olmar.

Exterior

 O azul da capa de cartolina reciclada destaca o caderno de aguarela dos restantes cadernos na colecção Authentic Albums.

Sendo de cartolina, a capa é, claro, sujeita a manchas e sujidade. Mas isso não é problemático se, não como eu, forem cuidadosos com as vossas coisas. A parte boa é que se tem um par de “páginas” azuis extra, para uma experiência artística diferente. A capa mole pode ser desafiante se estiverem habituados a desenhar em pé, ou sem uma superfície dura por baixo.

A capa e o papel são cortados simultaneamente, portanto não há disparidade de medidas entre eles. Os cantos arredondados do caderno ajudam a reduzir danos de uso, mas a principal característica que protege o caderno de se degradar é a sua brevidade – as 24 páginas que o compõem enchem-se num instante! Até agora, cada um dos três Authentics que usei duraram apenas um mês. Há pouca possibilidade de grandes danos ao caderno em tão pouco tempo.

Papel

As 12 folhas de papel de aguarela de celulose com 280g/m2 são cosidas por uma linha vermelha, visível na espinha do spread central. É um detalhe giro, como se fosse um tracejado vermelho, que nos avisa que já vamos a meio do caderno, e que talvez seja altura de encomendar mais um.

Atirei-lhe com o meu melhor e o meu pior, e os resultados são mistos. É um papel muito bom para experiências de aguarela, e conseguem-se tons vibrantes. Tem uma textura ligeiramente rugosa – algo como um grão grosso espalmado – mas suave o suficiente para que canetas de aparo finas passeiem sobre o papel sem percalços.

Abre completamente, portanto consegue-se uma boa dupla página, para um desenho panorâmico ininterrupto. O papel absorve a água rapidamente, de modo que é melhor ser-se bastante rápido com o pincel, se quisermos misturar cores. O uso de cores intensas causa alguma transferência de manchas de página para página, piorando com o tempo. O melhor é digitalizar os desenhos pouco tempo depois de se acabarem, porque as páginas irão ficar manchadas ao longo do tempo.

Contagem final dos prós

  • Papel de celulose equilibrado, para a dose diária de desenhos e aguarelas.
  • Curto o suficiente para se gastar numa viagem ou evento de poucos dias.
  • Leve e portátil.
  • Muito barato.
  • Abre totalmente.
  • Proporções ao baixo muito convenientes (mais alto que outros cadernos).

Contagem final dos contras

  • Transfere cores intensas de página para página, ao longo do tempo.
  • Capa sujeita a gasto e danos com uso prolongado.

Veredicto final

Tenho um sentimento de realização quando consigo compilar os desenhos de uma viagem de fim de semana ou um evento profissional num só caderno. O SM.LT Authentic Watercolor Book permite isso! É um caderno de aguarela breve e descontraído, mas competente, que permite um grande alcance em experiências de desenho e aguarela. É mais dado a desenhos rápidos, uma vez que a aguarela seca rapidamente. Irei, seguramente, usar mais destes cadernos no futuro.

Hahnemühle Watercolor Book review

(cliquem aqui para a versão em Português da avaliação)

Oh boy, I feel like a kid about to tell someone else about his favorite toy! Where to start? Maybe by saying Hahnemühle‘s Watercolor Book (HWB) is one of my favorite sketchbooks ever!

It comes in three sizes: portrait and landscape A5 and A6, plus a bulky landscape A4. This review is about the A5 landscape, which retails at 12.83€ at my local art supply store.

Outside

The hard cover is furbished in a dark grey synthetic fabric that has a slightly rough texture, which is quite practical, as it reduces the chance of the sketchbook slipping from your hand, while sketching or transporting it. It has a black elastic band that keeps it closed, the customary red ribbon page marker, and features the Hahnemühle’s rooster logo embossed in the back cover, center bottom.

The corners of both the cover and the paper are rounded, to prevent wear, and the paper sets back from the edge of the cover around 3-4mm, which grants additional protection to the paper edges. The whole sketchbook is quite robust. I’ve used a HWB for as long as six months, carrying it around in the backpack, without a hint of wear on either cover or paper.

Paper

Inside, 40 bound sheets of excellent 200gsm, fine grain, watercolor paper, await your scribbles. The endsheets are in the same kind of paper, so you can actually start sketching right from the back of the cover – I use the endpaper to write down my name and contacts, in case of loss.

One thing that stands out immediately is that the HWB lays completely flat when open. There’s no better way, aside from quality paper, to entice a sketcher to use a sketchbook than a fully openable spread of paper!

The paper is quite robust, and can withstand serious water. I use both wet-on-dry and wet-on-wet watercolor techniques, and this paper holds its ground quite competently, allowing layering as well as color mixing. It sucks up the water moderately fast, just long enough to mix colors and lead the pigment where you want it.

Using quality watercolors on this paper really pays off, as it preserves all the glow, intensity and transparency that you’d get in higher grade paper. It’s still cellulose paper, so don’t expect the same behavior as in cotton rag (i.e. no more than two to three layers). It wrinkles ever so slightly with the excess water, but nothing that would hamper the quality of your work.

Accessories

The elastic band is always useful as it keeps the book from opening inside the backpack, and. I also use it to attach a pen temporarily, so that I don’t have to put everything away when I’m carrying the book in the hand while walking just for a few minutes, or to fasten the pages in a windy day. Its elasticity lasts for three years and counting (that’s the age of my first ever HWB)

 

The red ribbon is pretty much useless to me, as the slight wrinkling the water causes on the paper usually shows me which page was last used. Nevertheless, the ribbon is so slim that I hardly ever notice it.

Pros final count
  • Perfectly balanced paper for casual indoor and outdoor sketching and watercoloring. Also used it for a few pro gigs quite satisfactorily.
  • Its cover material should be the benchmark for all sketchbooks around.
  • Portable, lightweight, resistant.
  • Excellent value for money
  • Opens flat
Cons final count
  • None I can think of
Final veredict

This sketchbook is a blast! A true piece of German engineering. It’s a deluxe canvas for your best sketches – I refrain from using it for experimental sketches, since I want to make each page count – and, if well used, makes your watercolor work pop right out of the pages! If there were to be a 100% cotton HWB in the future, I would definitely buy it.

 

Avaliando o Hahnemühle Watercolor Book

(click here for the English review)

Poças! Sinto-me como um miúdo prestes a falar a alguém sobre o seu brinquedo favorito! Onde começar? Talvez dizendo que o Hahnemühle Watercolor Book (HWB) é um dos meus cadernos favoritos de sempre!

É vendido em três tamanhos: A5 e A6 ao alto e ao baixo, e um volumoso A4 ao baixo. Esta avaliação é sobre o A5 ao baixo, vendido a 12.83€ na minha loja de artes local.

Exterior

A capa dura é revestida num tecido sintético cinzento escuro, que tem uma textura rugosa bastante prática, porque reduz a possibilidade do caderno escorregar das mãos durante um desenho ou ao transportá-lo. Tem um elástico preto que o mantém fechado, a fita marcadora vermelha do costume, e o logo do galo da Hahnemühle em relevo no verso, ao centro e abaixo.

Os cantos das capas e do papel são arredondados, para prevenir o desgaste, e o limite do papel está recuado entre 3-4mm em relação ao limite da capa, que garante protecção adicional às bordas do papel. O caderno é bastante robusto. Já usei um HWB durante seis meses, carregando-o na mochila, sem sombra de desgaste quer na capa, quer no papel.

Papel

No interior, 40 folhas cosidas de excelente papel de aguarela, de 200g/m2, grão fino, esperam os vossos desenhos. As folhas de forra são do mesmo tipo de papel, assim é possível começar logo a desenhar no verso da capa – Costumo usar o papel de forra para escrever o meu nome e contactos, em caso de perda.

Uma coisa que salta logo à vista é que a espinha do HWB abre completamente. Não há melhor maneira, salvo a qualidade do papel, para aliciar um desenhador a usar um caderno que um spread completamente plano!

O papel é bastante robusto, e consegue aguentar água à séria. Costumo usar técnicas de aguarela molhado sobre molhado e molhado sobre seco, e este papel aguenta-se competentemente, permitindo várias camadas e mistura de cores. Abosrve a água moderadamente rápido, mas é suficiente para permitir trabalhar as cores e levar o pigmento onde se quer.

Usar aguarelas de qualidade neste papel é recompensante, uma vez que ele preserva todo o brilho, intensidade e transparência que se esperaria em papel de maior calibre. Apesar de tudo, continua a ser papel de celulose, portanto não se pode esperar o mesmo comportamento que no papel de algodão (isto é, não mais do que duas a três camadas). O papel enruga um pouco com a água em excesso, mas nada que seja determinante na qualidade do trabalho final.

Acessórios

O elástico é sempre útil, já que mantém o caderno fechado dentro da mochila. Também o uso para prender a caneta temporariamente, para não ter de guardar tudo no sítio enquanto caminho durante alguns minutos em busca de outro desenho, ou para prender as páginas num dia ventoso. A sua elasticidade dura pelo menos há três anos (a idade do meu primeiro HWB). A fita marcadora vermelha é-me um pouco inútil, uma vez que o ligeiro enrugamento do papel me diz, de forma mais prática e directa, qual a última página usada. Mas a fita é tão fina e discreta que nem dou por ela.

Contagem final dos prós
  • Papel perfeitamente equilibrado para desenhos e aguarelas descontraidos de interior ou exterior. Também já usei satisfatoriamente o HWB para alguns trabalhos profissionais.
  • O revestimento da capa devia ser o padrão para todos os cadernos por aí!
  • Portátil, leve, resistente.
  • Excelente valor monetário.
  • Abre na totalidade.
Contagem final dos contras
  • Não me ocorre nada
Veredicto final

Este caderno é um espectáculo! Um verdadeiro produto de engenharia Alemã. É uma tela de luxo para os vossos melhores desenhos – evito usá-lo para desenhos de teste ou experimentação, porque quero que cada página conte – e, se for bem usado, faz as aguarelas saltar fora das páginas! Se houvesse um HWB de papel 100% algodão, iria definitivamente comprá-lo.

Journals in the north

Nós e os Cadernos 2, an event in 2017 about sketchbooks organized by Tiago Cruz, was set in the beautiful surroundings of the Parque Natural do Litoral Norte, a natural reserve around the mouth of the Cávado river.

Nós e os Cadernos 2, um evento sobre cadernos, organizado pelo Tiago Cruz em 2017, teve como cenário a bela envolvente do Parque Natural do Litoral Norte, uma reserva natural em torno da foz do rio Cávado.

A handful of small historical towns pepper the area, and the participants benefited from a two-day tour, visiting three of them, all with different characters.

A região é polvilhada por pequenas vilas históricas, e os participantes do evento beneficiaram de visitas a três delas, todas com atmosferas diferentes.

Fão is a small medieval town just next to the last bridge over the Cávado. Many people that emigrated to the former colony in Brazil, ended up building a home here upon their return. There’s plenty of quality public spaces by the river shore, all lined and furbished in granite, which, for a southerner like me, is the first feature that stands out.

Fão é uma pequena vila medieval mesmo ao lado da última ponte sobre o Cávado. Muitas pessoas que emigraram para a antiga colónia do Brasil acabaram por construir a sua casa aqui, após o seu regresso. Abundam os espaços públicos à beira do rio, revestidos e ladeados em granito, que, para alguém natural do sul como eu, é a primeira característica a destacar-se.

Apúlia has been known as a beach resort for decades, and before that as a capture point for sargasso. Its most distinct feature is the sequence of windmills on the dune, which are now converted to touristic lodgings. But again, what stands out to my southerner eyes are the hut-like structures that shield the beach-goers from the harsh crisp wind, which aren’t definitely a feature on the south coast beaches.

A Apúlia é conhecida como uma estância balnear há décadas, e antes disso como uma área da apanha do sargaço. A sua característica mais marcante é a sequência de moinhos sobre as dunas, que agora estão convertidos em alojamento turístico. Mas, mais uma vez, o que se destaca aos meus olhos do sul são as pequenas barracas que polvilham a praia e abrigam os banhistas do vento ríspido. Estas não são definitivamente uma característica das praias da costa sul.

Then, there’s Esposende itself, the helm of the municipality that supported the event and our tours. Besides being a historical town worth visiting, the coastal landscape, the nature reserve around it and the myriad of interesting destinations in a reasonable distance make it a perfect home base to relax in the north of Portugal.

Depois, há a cidade de Esposende, a sede do concelho que apoiou o evento e os nossos passeios para desenhar. Para além de ser uma cidade histórica que vale a visita, a paisagem costeira, a reserva natural envolvente e a miríade de destinos interessantes a uma distância razoável, tornam-na o quartel-general perfeito para relaxar no norte de Portugal.

Nós e os Cadernos 2

In the summer of 2017, Tiago Cruz, researcher at CIAC, invited ten sketchbook lovers to Esposende, for a weekend of talks and sketchwalks in the Minho shores, in an event titled Nós e os Cadernos 2. I was honored to be included in the rooster of speakers, alongside Alexandra Belo, António Jorge Gonçalves, Eduardo Salavisa, Manuel João Ramos, Manuel San Payo, Marco Costa, Rosário Félix and Vítor Mingacho.

The event, supported by the Esposende Municipality, was all about the sketchbook – this magical object that artists, illustrators, architects, social scientists and many others use regularly. Some use it for practice, others as a study journal or as a final piece of art, some may use it instead of a confession booth or therapist’s couch, some even use it merely out of comfort and habit.

Regardless of individual perspectives on it, the sketchbook is a fundamental object for many people, and serious research studies about it are scarce. Tiago strives to turn it into a valuable object of research, and Nós e os Cadernos is the annual manifestation of that effort. The talks of the speakers during the event were just now published in ebook which can be downloaded here for free (Portuguese only).

Action-to-action transition and aspect-to-aspect transition, according to Scott McLoud (1993)
Action-to-action transition and aspect-to-aspect transition, according to Scott McCloud (1993)

My own talk – Caneta Cinematográfica – had to do about the similarities of experiencing a sketchbook and cinema, and was heavily inspired in Nerdwriter‘s excellent video essay Ghost in the Shell: Identity in Space.

Stills of the boat scene in Ghost in the Shell (1995)
Stills of the boat scene in Ghost in the Shell (1995)

No verão de 2017, o Tiago Cruz, investigador no CIAC, convidou dez amantes de diários gráficos a Esposende, para um fim-de-semana de palestras e saídas de desenho no litoral Minhoto, a que chamou Nós e os Cadernos 2. Tive a honra de ser incluído no plantel de palestrantes, ao lado de Alexandra Belo, António Jorge Gonçalves, Eduardo Salavisa, Manuel João Ramos, Manuel San Payo, Marco Costa, Rosário Félix e Vítor Mingacho.

O evento, apoiado pelo município de Esposende, foi inteiramente dedicado aos diários gráficos – esse objecto mágico que artistas, ilustradores, arquitectos, cientistas sociais e muitos outros profissionais ou amadores usam regularmente. Alguns usam-no para praticar, outros como um caderno de campo ou ainda como uma peça de arte final, pode ser usado como confessionário ou sofá de terapeuta, ou ainda por hábito ou conforto.

Independentemente das abordagens individuais, o diário gráfico é um objecto fundamental para muitos, e ainda são parcas as investigações sérias sobre o assunto. O Tiago faz por torná-lo um tema de investigação válido, e o Nós e os Cadernos é a manifestação anual desse esforço. As palestras do evento estão agora publicadas num ebook que pode ser descarregado gratuitamente aqui.

A minha palestra – Caneta Cinematográfica – tem a ver com os paralelismos na experimentação de um diário gráfico e de cinema, e foi fortemente inspirado no excelente ensaio em video Ghost in the Shell: Identity in Space, de Nerdwriter.