The return of the prodigal sun

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After several weeks in preparation, the sketches done during the six-month challenge by Pedro Cabral to the Urban Sketchers Portugal has, at last, seen the daylight! Alfredo Roque Gameiro left Minde to work, sketch and paint in the streets of Lisboa in the early 20th century. Last saturday, nearly a hundred sketches, done by over fifty authors, revisiting the original hundred locations depicted by the notorious watercolorist settled in his native town to pay him homage.

Depois de várias semanas de preparação, os desenhos feitos durante o desafio de seis meses proposto pelo Pedro Cabral aos Urban Sketchers Portugal viu, finalmente a luz do dia! Alfredo Roque Gameiro deixou Minde para trabalhar, desenhar e pintar as ruas de Lisboa no princípio do século XX. No último sábado, perto de uma centena de desenhos, feitos por cerca de cinquenta autores, em revista aos cem locais originais desenhados pelo célebre aguarelista estabeleceram-se na sua terra natal em tributo.

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There was no better place nor better crew to host this exhibition than the Museu de Aguarela Roque Gameiro and its people. The sketches can be seen until the 15th of Abril, when they’ll be regathered for a future exhibition that’s still on the drawing board. Also featured in the museum is the exhibition of original watercolors and illustrations by Alfredo Roque Gameiro himself. To top it off, the building itself, where the museum is based – Casa Açores, with its gardens and annexes – is well worth the visit, having been, in all probability, designed by master architect Raul Lino, as him and Alfredo were known to be good friends.

Não havia melhor sítio nem melhor gente para receber esta exposição que o Museu de Aguarela Roque Gameiro e as pessoas que o mantêm. Os desenhos podem ser vistos até 15 de Abril, altura em que serão reunidos para uma futura exposição que ainda está no estirador. No museu também se pode visitar uma exposição de originais de Alfredo Roque Gameiro, alguns deles, ilustrações feitas para uma edição d’As Pupilas do Senhor Reitor. Por cima de tudo, o próprio edifício onde se localiza o museu – a Casa Açores, com os seus jardins e anexos – vale bem a visita, tendo sido, em toda a probabilidade, projectada por Raul Lino, já que ele e Alfredo eram bons amigos.

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The sketch meeting that opened the exhibition gathered about 20 sketchers in the museum grounds. Some even explored the weaving workshop where the beautiful local woolen blankets are made, and the town itself. In the late afternoon, the local Charales Chorus gifted us some fine gospel and other tunes for the road back home.

O encontro de desenho que inaugurou a exposição juntou cerca de 20 desenhadores no museu. Alguns até exploraram o atelier de tecelagem onde se fazem as belas mantas de lã de Minde, e a própria vila. Ao fim da tarde, o grupo local Charales Chorus ofereceu-nos um belo gospel e umas outras melodias para o caminho de volta a casa.

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Traç/zo 16 – an Iberian affair #3

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The sharp angles of the Forte da Graça create high contrast shadows and defined planes, excellent setting for beginner and intermediate sketchers that want to study shading in their work.

Os ângulos agudos do Forte da Graça criam sombras de alto contraste e planos definidos, um cenário excelente para desenhadores estreantes e intermédios que pretendam estudar sombras no seu trabalho.

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In fact, most of the town of Elvas is such a setting. The buildings are mostly utilitarian – grain mills, star forts and simple Alentejo popular architecture. The fort overlooks on the road that leads to the train station. Tractors still drive through it on their way to the fields. Meanwhile, on the moon of Endor, two scout troopers on speeder bikes patrol the sanctuary forests for rebel commandos.

Com efeito, muitos sítios em Elvas têm tal cenário. Muitos dos edifícios são predominantemente utilitários – moagens e armazenamento de cereais, fortificações em estrela e arquitectura vernácula Alentejana. O forte espreita ao longo da estrada que leva à estação de comboio. Ainda passam tractores nesta estrada, a caminho dos campos. Entretanto, na lua de Endor, dois scout troopers em speeder bikes patrulham as florestas do santuário procurando comandos rebeldes.

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Later in the day, after Traço ’16 was over, Miguel and I went for a short visit to the only disputed territory between Portugal and Spain: the border town of Olivenza/Olivença. The town, originally under Portuguese rule, came into the hands of the Spanish crown after the Napoleonic Wars. Different interpretations by the two countries of the Congress of Vienna (1814-15) gave rise to a dispute lasting to today. It is the only territorial dispute Portugal has in the CIA Factbook.

The street signs are bilingual, and some of the street names are entirely different. So if you live in Olivenza, you may end up with two different valid addresses.

Ao fim da tarde, quando o Traço ’16 já tinha terminado, o Miguel e eu fizemos uma visita rápida ao único território disputado entre Portugal e Espanha: a cidade fronteiriça de Olivenza/Olivença. A cidade, originalmente em território Português, caiu nas mãos dos Espanhóis depois das Invasões Napoleónicas. Interpretações diferentes dos resultados do Congresso de Vienna (1814-15) deram origem a uma disputa que ainda hoje se mantém. É a única disputa territorial Portuguesa registada no CIA Factbook.

As placas com os nomes de ruas são bilingues, e alguns dos nomes são inteiramente diferentes nas duas línguas. Vivendo em Olivença, podem ter-se duas moradas diferentes válidas.

Traç/zo 16 – an Iberian affair #2

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Traço ’16, Elvas drawing festival’s clever logo, designed by João Sequeira, manages to communicate both Portuguese and Spanish writing of the word traço (meaning line stroke, pronounced «trasso»), aiming for an Iberian audience. The four-day festival, that aims to become annual, successfully managed to gather sketchers, artists, illustrators, comic book authors, architects and designers, form both Portugal and Spain, in the picturesque UNESCO World Heritage site Forte da Graça.

O logótipo do Traço ’16, Festival de desenho de Elvas, criado por João Sequeira, consegue comunicar tanto a grafia Portuguesa como a Espanhola da palavra traço, apontando para uma plateia Ibérica. O festival de quatro dias, que ambiciona tornar-se anual, juntou desenhadores, artistas, ilustradores e autores de banda desenhada, arquitectos e designers, de ambos os países, no pitoresco Forte da Graça, património mundial da UNESCO.

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The final talk of the day was a conversation with Borja González, a Spanish illustrator, and Paulo Monteiro, the Portuguese director of the Bedeteca de Beja (Beja comic book library). There was a long discussion about the state of the comic book market in both countries, where Borja spoke of how comics are a very successful industry in Spain right now and Paulo had but dire news about the Portuguese editorial panorama – where many talented authors and many good-willed editors exist, but the market is just too small for critical mass to be achieved (as it already happened in Spain). The solution for the small market challenge might reside in a self-effort from the authors to export their own work.

A palestra final do sábado foi uma conversa entre Borja González, um ilustrador Espanhol, e Paulo Monteiro, director da Bedeteca de Beja. Gerou-se um longo debate sobre o estado do mercado de banda desenhada em ambos os países, no qual Borja conta como a banda desenhada se tornou num sector de sucesso nos últimos anos, todavia o Paulo trazia notícias mais negras sobre o panorama editorial Português – onde existem muitos autores talentosos e editores bem intencionados, mas o mercado é simplesmente demasiado pequeno para se atingir a massa crítica (como já sucedeu em Espanha). A solução para o desafio do mercado pequeno poderá residir num esforço dos próprios autores em exportarem directamente o seu trabalho.

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The Forte da Graça overlooks upon the north face of the fortified town of Elvas. As the sun goes down, the sharp northern slope gets darker and darker.

O Forte da Graça espreita de cima a face norte da cidade fortificada de Elvas. À medida que o sol se põe, a íngreme encosta norte adquire tons mais e mais escuros.

Traç/zo 16 – an Iberian affair #1

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The Graça Fort is a unique military architecture structure, built in the second half of the 18th century, under the Count of Lippe, as a means to secure the highest ground in the region, just north of the town. The strategic relevance of the Graça hill, where the fort was built, became evident about a century before, during the Restoration War, when the Spanish army bombarded the town of Elvas from the vantage point, some 60 meters above the town’s castle. Its ramparts, moats and bastions are organized according to the star fort dutch model.

Forte da Graça é uma peça de arquitectura militar única, construida na segunda metade do séc. XVIII, sob as ordens do Conde de Lippe, por necessidade de segurar o ponto mais alto da região, a norte da cidade. A importância estratégica do Monte da Graça, onde foi construido o Forte, tornou-se clara cerca de um século antes, durante a Guerra da Restauração, quando o exército Espanhol, a partir deste ponto sobranceiro, bombardeou a cidade de Elvas, cujo castelo se encontra a cerca de 60 metros abaixo do topo do monte. As suas muralhas, fossos e baluartes estão organizados de acordo com o modelo holandês de fortificação em estrela.

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This was the setting for Traço ’16 – Elvas Drawing Festival, which during four days liven up the old fortress with exhibitions by illustrators and comic book artists from both sides of the Iberian border, drawing workshops, lectures, a theatrical performance and a national Urban Sketchers meeting.

Este foi o cenário do Traço ’16 – Festival de Desenho de Elvas, que durante quatro dias animou a velha fortaleza com exposições de ilustradores e autores de banda desenhada de ambos os lados da fronteira Ibérica, oficinas de desenho, palestras, uma performance teatral e um encontro nacional de Urban Sketchers.

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Travel journals in Abrantes #2

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Meandering around the old town of Abrantes, you might come across a couple of contemporary architecture designs. The newly constructed medical center was designed by fellow local sketcher Pedro Costa – I didn’t know that at the time I was sketching it, so it was a surprise for both of us when he leafed through my sketchbook and found his own work put to paper. I had to get an autograph from him of course!

Passeando pela cidade antiga de Abrantes, poder-se-à encontrar um par de obras de arquitectura contemporânea. A recém-construida unidade de saúde foi projectada pelo colega de desenho local Pedro Costa – não sabia disso quando desenhei, por isso, foi uma surpresa para ambos quando ele folheou o meu caderno e encontrou o seu próprio trabalho riscado no papel. E ganhei um autógrafo!

Almost opposite to it, the new municipal market, designed by ARX Portugal, negociates the transition between high and low ground, in a relatively narrow plot, while contributing with a bit of modernity to the street façade.

Muito perto da unidade de saúde, o novo mercado municipal projectado pelos ARX Portugal, resolve a transição de cotas entre duas ruas que contornam o quarteirão, num lote relativamente estreito, enquanto contribui com um pouco de modernidade ao alçado da rua.

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It was mid-afternoon when dozens of students from the local university gathered in one of the many city squares, playing guitars and singing, drinking beer and being merry in their pitch black traditional outfits. Beer and sun are excellent excuses for my late arrival to Javier de Blas‘ lecture on his stay with the Sahauri refugees in Tindouf, Algeria. His – much like Simo Capecchi‘s work with the people of L’Aquila – is an investigative and interventive work. He records and shows us ordinary lives of ordinary people living in extraordinary conditions. In his sketches and words, the thoughts and feelings of the Sahauri refugees seem closer to our own, and gradually we wash away the dramatic and political layer other visions have planted in us. The vision of a sketcher is a patient one, and in this process, anger and revolt give way to empathy and understanding, which might be a more effective way of reaching out to people on behalf of people in need.

Já era tarde, quando dezenas de estudantes do politécnico local se juntaram numa das muitas praças do centro histórico, tocando guitarras e cantando, bebendo cerveja e festejando nos seus trajes negros. Cerveja e sol são excelentes desculpas para a minha chegada tardia à palestra do Javier de Blas sobre a sua estadia com os refugiados Sahauris em Tindouf, na Argélia. O trabalho dele – à semelhança do da Simo Capecchi com os habitantes de L’Aquila – é de investigação e intervenção. Ele regista e mostra-nos vidas comuns de pessoas comuns vivendo em condições incomuns. Nos seus desenhos e palavras, os pensamentos e sentimentos dos refugiados Sahauris tornam-se próximos dos nossos, e gradualmente, a camada dramática e política que outras visões nos inculcam desvanece-se. A visão de um desenhador é paciente, e nesse processo, a ira e a revolta dão lugar à empatia e à compreensão, que poderão ser maneiras mais eficazes de chegar às pessoas pela causa de outras pessoas.