Secrets of a craftsman #2 / Segredos de um artesão #2

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

Ataíde progressed faster than his army comrades, getting multiple promotions at once. He also did a stint at the army’s carpentry. Much like his father, his skill granted him support among his commanding officers who would even assign him personal projects. “Who was going to the officers houses to work? Neves.” he tells in the third person, as if distancing himself from the talented young man that he was. Accidentally chopping off the tip of a thumb earned him yet another promotion and the return to saddlery.

Ataíde progrediu na carreira mais rapidamente que os seus colegas do Casão Militar, saltando várias categorias de uma vez só. Ainda no exército, trabalhou breves anos na carpintaria. À semelhança do seu pai, pela habilidade, caiu nas boas graças dos seus superiores que lhe encomendavam pessoalmente trabalhos. “Quem ia para casa dos oficiais era o Neves” conta, empregando a terceira pessoa do singular para se distanciar do jovem talentoso que foi. O corte da ponta de um polegar valeu-lhe mais uma promoção e o regresso à correaria.

The neutral and detached tone Neves takes as he recalls the past, hints a man with no interest in glory. Ataíde Neves’ passion is neither success nor money. It’s not even the allure of being around and working with horses. There’s no particular attraction or admiration there. He only seems infatuated with his daughters and his craft. Every order he gets is a project he carefully and meticulously plans and executes, not stopping unless he outputs a quality product.

O tom neutro e desapegado com que relata os sucessos passados do Neves revela uma homem desinteressado pelos louros. A paixão de Ataíde Neves não é o sucesso nem o dinheiro, nem sequer o fascínio pelos cavalos, que tanto magnetismo exerce junto de tantas pessoas. Ele apenas se revela apaixonado pelas suas filhas e pelos seus ofícios. Encara cada encomenda como um projecto em que deposita planeamento cuidado, mestria de execução e entrega a um resultado final de qualidade.

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

Among the objects he makes, together with his seamstress wife, there’s a whole thesaurus exclusive to the world of horseback riding – Portuguese and English halters, bridles and hackamores, bits, harnesses and breastplates, saddles and cruppers – everything handmade. He frowns upon the mass manufactured gear sold by large sports retailers, but ensures that he faces no competition from them. Experience tells him many people – especially the more experienced riders – appreciate his sturdy, honest, hand-made products.

Entre os objectos que produz, juntamente com a esposa costureira, encontra-se todo um vocabulário exclusivo ao universo dos cavalos – cabeçadas Portuguesas de meia cortesia, cabeçadas à Inglesa, serrilhões, cilhões de volteio, arreios, rabicheiras, selas à Portuguesa ou à Relvas – tudo feito à mão. Repudia o material vendido por grandes cadeias de material de desporto, fabricado em série, mas assegura que estas não lhe fazem concorrência. A experiência provou-lhe que há muita gente que aprecia o material feito à mão, genuíno e robusto, em particular cavaleiros com mais experiência.

Unexpectedly, this little workshop amidst the «Jockey» seems to have found the Holy Graal of entrepreneurs. It’s hard for Ataíde to pin a figure, but he ensures that 85 to 89 percent of the product he sells are exports – chiefly to Austria, Switzerland, Germany and France. He even has repair jobs coming from abroad. His advertising is the simplest: word-of-mouth and satisfied customers. His greatest marketing assets are riders that make use of his products in international venues and competitions. He doesn’t deal online or through slug mail. It’s one of his regulars, who travels frequently to key-locations, that brings the product straight to his foreign customers. The GNP owes him gratitude.

Inesperadamente, esta pequena loja no seio do «Jockey» parece ter encontrado o Santo Graal do empreendedorismo em Portugal. É difícil a Ataíde garantir um número preciso, mas afirma que cerca de 85 a 95 porcento do material que vende é para lá da fronteira. Exporta principalmente para Áustria, Suíça, Alemanha, França. E tem até pedidos de reparação de material do exterior. A sua publicidade é a mais simples: o passa-palavra e os clientes satisfeitos. Os seus maiores divulgadores são cavaleiros que usam o seu material em exposições, feiras e competições. Não lida com internet ou correios para gerir as encomendas. Um seu cliente português que viaja frequentemente para locais-chave, encarrega-se de lhe levar as encomendas aos clientes estrangeiros. O PIB agradece.

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

The workshop’s location has become more tradition than convenience, since Ataíde’s business wouldn’t survive depending only on the «Jockey’s» usuals. Associates of the club appreciate his service, but frown on the fact that Ataíde serves customers outside the circle.

A localização da loja já é por tradição e por conveniência, mas Ataíde afirma que não sobreviveria apenas com a freguesia do «Jockey». Os sócios do clube apreciam os seus serviços, mas desdenham que Ataíde faça negócio fora do círculo.

While exports make his livelihood, unusual customers capture his attention. Berlin-based Portuguese Artist Leonor Antunes uses traditional materials in her grid-inspired sculptures. The leather for her works discrepancies with M.S. #2, Random Intersection #8, and A secluded and pleasant land. In this land I wish to dwell, the latter exhibited in Miami in 2014, were made by Ataíde in his workshop, scented with the odor of comfort, amidst the bitter smell of the boxes and rings, hidden alongside Campo Grande. He never got around to visit any exhibition of his works, although he was invited by the artist herself. He rarely travels unless it’s to visit his native village on the banks of the Zêzere, which natural beauty he boasts emphatically. He doesn’t like to leave his wife and two daughters for long, especially the eldest, whose health condition he struggles to conceal along his tale.

Se são as exportações que lhe dão o ganha-pão, os clientes invulgares despertam-lhe a curiosidade. Leonor Antunes, artista plástica Portuguesa de projecção internacional, baseada em Berlim, faz uso de materiais vernáculos nas suas esculturas inspiradas por grelhas e estruturas arquitectónicas. O cabedal para as suas peças discrepancies with M.S. #2, Random Intersection #8, ou A secluded and pleasant land. In this land I wish to dwell, esta última exibida em Miami em 2014, foram encomendas executadas por Ataíde, na sua minúscula oficina impregnada com o cheiro a conforto do cabedal, instalada entre o acre das boxes e picadeiros, escondida à beira do Campo Grande. Nunca chegou a visitar as exposições, apesar de ter sido convidado pela própria artista. Raramente viaja sem ser para a sua aldeia no vale do Zêzere, de que gaba a beleza natural. Não gosta de deixar a esposa e as filhas por muito tempo, em particular a filha mais velha, de 28 anos de idade, cuja condição patológica tem dificuldades em contornar ao longo da conversa.

Campo Grande, horseback riding, Lisboa, Portugal, saddlery, workshop

Ataíde complains about the lack of time and space. Time, to work in projects he really enjoys, like a fine saddle based on designs his workshop used to manufacture. “[Making] a saddle is the top of the game” he concludes. Space, to host apprentices who could help him or continue his work. But surprisingly, and unlike so many businesses in the country, Ataíde Neves does not complain about lack of work.

Queixa-se Ataíde da falta de tempo e de espaço. De tempo para trabalhar em projectos de que gosta realmente, como uma boa sela, seguindo os modelos que a sua loja costumava oferecer. “Uma sela, um arreio é o topo da profissão.” conclúi. De espaço para receber formandos que o ajudem ou dêem continuidade ao seu trabalho. Mas surpreendentemente, e contra-corrente de tantas empresas em Portugal, Ataíde Neves não se queixa de falta de trabalho.

Secrets of a craftsman #1 / Segredos de um artesão #1

Saddlery by Ataíde Neves
In Lisboa, an experienced saddler dodges the crisis thanks to the quality of his work. He works the leather mainly for horseback riders, but doesn’t turn his back to unexpected customers, domestic and foreign alike. His joy and his skill are the pillars of his unusual success, he claims, although returning customers and the rarity of his skill may very well be a strong influence.
Em Lisboa, um correeiro experiente contorna a crise graças à qualidade do seu trabalho. Trabalha o cabedal maioritariamente para cavaleiros mas não recusa clientes de áreas inesperadas, dentro e fora de fronteiras. Aponta o gosto pelo que faz e a habilidade com que o faz como os pilares do seu invulgar sucesso, mas clientes fiéis e a raridade do seu ofício poderão ser factores determinantes.

That saturday, due to the heavy rains, the juniors football team of Povoense didn’t play against Benfica, which gave Ataíde Neves – father of two daughters, the youngest of them thirteen years old  is a football player in Povoense – the morning off to talk about his job, his business and his life.

Nesse sábado, devido à chuva torrencial, a equipa de futebol de juniores feminina do Povoense não jogou com o Benfica, o que deixou a Ataíde Neves – pai de duas filhas, a mais nova, com treze anos de idade, futebolista no Povoense – a manhã livre para conversar sobre a sua profissão, o seu negócio e a sua vida.

Ataíde Neves, the Jockey Club saddler

His workshop is deep inside a small village located in Lisboa, a place that, as so many other places in the capital, goes unnoticed to many Lisboners. Only people who are related to its specific culture work, reside or visit this village. A few dozen people inhabit it. As do a few hundred horses. It sits right besides Campo Grande and goes by the name of Centro Hípico de Lisboa, home of the Sociedade Hípica Portuguesa. Those who visit it regularly call it by its less formal name – the Jockey.

A sua pequena loja-oficina fica numa aldeia no interior de Lisboa que, como tantos outros lugares da capital, passa despercebida aos Lisboetas. Nesta aldeia só residem, trabalham ou a visitam pessoas que, de uma ou outra forma, estão relacionadas com a sua actividade e a sua cultura específica. Lá residem algumas dezenas de pessoas e algumas centenas de cavalos. Fica junto ao Campo Grande e chama-se Centro Hípico de Lisboa. Quem a visita conhece-la pelo nome da instituição que alberga – a Sociedade Hípica Portuguesa – ou pelo seu nome mais coloquial – o «Jockey».

Besides small spontaneous houses, meandering the dirt tracks and puddles, this Lisboa’s village also has riding rings, courtyards connected to the boxes where the horses dwell, and half a dozen commercial establishments. One of these is the notorious – for those who need it – saddler workshop, a skill closely bound to the art of horseback riding.

Para além de pequenas habitações vernáculas, esta aldeia Lisboeta possui também, entre caminhos de saibro e terra batida, picadeiros e pátios relacionados com a prática do hipismo e meia dúzia de estabelecimentos comerciais, entre os quais a famosa – para quem dos seus serviços precisa – loja do correeiro, ofício intimamente ligado à arte de cavalgar.

Saddlery by Ataíde Neves

 

Ataíde, a saddler with 36 years on the job, started his activity in the army’s workshops – the Casão Militar, fulfilling the army service at the same time. He chose saddlery, not by family tradition, but because he considered himself a natural craftsman. But the origins of such talent, he puts it partly on his father who, in his native Pampilhosa da Serra region, would frequently replace the scarce physicians of the province, dispensing treatments and simple bandages throughout the villages. Threatened by the Republican Guard for practicing unlicensed medical acts, he was helped by a doctor who treasured him as a field aid and who drove him to Coimbra to help him legalize the job he already had.

Ataíde, correeiro com 36 anos de experiência, começou a sua prática nas Oficinas Gerais do Exército, o Casão Militar, cumprindo, simultaneamente o serviço militar obrigatório. Escolheu a correaria, não por ter alguma ligação familiar ao ofício, mas por se considerar habilidoso com os trabalhos manuais. Já as origens de tal talento, atribui-as em parte ao pai, que na sua região natal da Pampilhosa da Serra fazia frequentemente as vezes dos raros médicos da província, administrando tratamentos e curativos simples pelas aldeias da zona. Ameaçado pela GNR por praticar actos médicos sem licença, foi ajudado por um médico que o estimava como auxiliar e que o levou a Coimbra para o ajudar a legalizar a profissão que já exercia.

(to be continued / continua)